top of page
8288BF6C-FC6F-44D6-A78C-1D0B75668D52.JPG

CÉU / SKY| 2017 | Galeria das Salgadeira, Lisboa, PT

 

Ao longo do seu percurso, iniciado com “Diário de Imagens”, em 1997, curiosa a perenidade do título, Paula Almozara tem concentrado a sua pesquisa e actividade artística em torno da temática da Paisagem. Já assim havia acontecido em “Paisagem-ficção”, na primeira individual em Portugal, onde as fotografias, através de processos de gravura, foram intervencionadas como se de uma erosão se tratasse, qual “mãe-Natureza” aqui assumida, com outras formalidades, pela própria artista. Eram, então, a silhueta do território, o chão, a casa abandonada, o mar, a linha do horizonte, protagonistas dessa paisagem ficcionada, inventada algures nesse lugar mágico da imaginação.
Ao longo das últimas décadas, a Paisagem enquanto género artístico expandiu-se, integrando em si mesma as relações estabelecidas entre sujeito/artista e território, extravasando a esfera da representação naturalista e edílica do século XIX. Na linha desta abordagem mais contemporânea, a paisagem é, em Paula Almozara, representada como o reflexo de uma memória afectiva. Amiúde visita o nosso país, sempre acompanhada de uma máquina fotográfica, seja digital, analógica, polaroid, ou “celular”, registando em termos imagéticos uma experiência que virá a ser, posteriormente, recuperada e re-inventada. As fotografias ficam latentes, à espera que se crie uma certa distância em termos de tempo e de espaço, que a saudade se instale funcionando como génese do seu processo criativo. Desde logo, a pertinência de uma cartografia gerada e impulsionada pela recordação, já ela imperfeita, irregular e difusa. Por outro lado, os afectos, essa relação visceral que tem vindo a estabelecer com Portugal, de onde emergem lugares imaginários, porventura utópicos, quais ilhas desconhecidas, cidades invisíveis, vinte mil léguas submarinas, Jardim de um Éden, País de umas quaisquer maravilhas, entre tantos outros que foram os lugares criados por artistas de um tempo que, nem sempre sendo o nosso, é o de todos nós.
Em “Céu”, Paula Almozara apresenta-nos um registo urbano e mais gráfico das paisagens que encontra e reinventa, fortemente marcadas pelo monocromatismo e contraste destas suas obras, onde a palavra sublinha a poética e o mistério da imagem. Num certo sentido, controverso com certeza, o Céu, assim com maiúscula, é uma espécie de não-lugar onde as boas almas encontram a sua morada eterna. Porém, céu, na sua mundana formalização, também significa esse espaço ilimitado, onde orbitam os astros neste Universo que, por ora, conhecemos. Entre um e outro, dos múltiplos sentidos da palavra, paira o céu como ponto de chegada e de partida de uma viagem, na deriva da descoberta, à procura do desconhecido não referenciado. Uma membrana fluida que nos transporta por entre paisagens. Este é o lugar imaginário de Paula Almozara: as nuvens que passam com o tempo como se o espaço não existisse, o granito que suporta o paradoxal peso do céu, uma paisagem cartografada do ar, os hangares como portais para uma outra dimensão, a da viagem de quem “anda nas margens da corrente”, recuperando o verso de Pedro Ayres de Magalhães, inscrito numa obra desta exposição.
Assim terminaria esta folha de sala. Sucede que dias antes da inauguração, a Paula Almozara ofereceu-me o “Dicionário de lugares imaginários” de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi. Feitos os devidos agradecimentos e de alma cheia, fui logo procurar a palavra “céu” neste dicionário, uma vez que, no da nossa língua, comum ainda por cima, já o tinha feito. Não encontrei... A desilusão primeira rapidamente deu lugar à revelação. Afinal, a acepção de céu para Paula Almozara tinha estado sempre ali: “tempo destino morada”. A ordem pode ser
arbitrária, a rota, porém, essa está traçada. O importante é ir.


Ana Matos
Abril 2017
(Ana Matos escreve de acordo com a antiga ortografia)

Panoramas, Fotografia instantânea, tipo Polaroid, diponibilizadas em estrutura de acrílico formando uma vista em panorama de paisagens de voos ou relacionadas ao céu.

Vista geral da sala principal da exposição céu na Galeria das Salgadeiras, Lisboa, PT. 2017.

IMG_3862_edited.jpg

Série de gravuras em metal impressas em papel Hahnemühle, 300gsm. Intituladas Vistas, dimensões aproximadas, 40x60x3cm. 

IMG_3873_edited.jpg

Céu. Escultura com dimensões aproximadas de  17x10x9cm. Minério de ferro, punção de ação, imã, bas em acrílico preto.

© 2025 por Paula Almozara.

bottom of page